Analisando letras

Desvende o significado por trás da música Cidadão, do Zé Ramalho

Por Rafaela Damasceno

21 de Julho de 2020, às 12:00


Clássico da música nacional, Cidadão, na voz Zé Ramalho, se tornou um verdadeiro sucesso que atravessa gerações. Apesar de ter ficado conhecida na versão do cantor, na verdade ela foi escrita por Lúcio Barbosa e gravada pela primeira vez por Zé Geraldo.

Muito desse sucesso se deve ao fato de a canção trazer uma mensagem importante sobre a vida do povo brasileiro, que apesar de ter sido escrita na década de 1970, continua bastante atual

Zé Ramalho
Créditos: Divulgação

Então, que tal saber o significado por trás da música Cidadão, do Zé Ramalho? Continue lendo a nossa interpretação!

Significado da música Cidadão, de Zé Ramalho

Cidadão é sobre um homem que trabalha na construção civil e ajudou a construir vários prédios e casas na cidade grande.

Ela foi escrita pelo poeta baiano Lúcio Barbosa, em homenagem a seu tio Ulisses. Veja, a seguir, como Zé Ramalho conseguiu nos transmitir esse poema em forma de música ao assumir a voz do eu lírico:

Tá vendo aquele edifício, moço?
Ajudei a levantar
Foi um tempo de aflição
Era quatro condução
Duas pra ir, duas pra voltar

Logo na primeira estrofe, o trabalhador começa a contar para uma pessoa sobre um edifício em que ele participou da construção. Já no início, podemos perceber a condição humilde do personagem, que passava por diversas dificuldades para chegar ao trabalho

Essa é a realidade de muitos brasileiros, que têm de se deslocar durante horas e pegar várias conduções para ir trabalhar. Sem falar na demora e na superlotação dos ônibus.  

Hoje depois dele pronto
Olho pra cima e fico tonto
Mas me vem um cidadão
E me diz, desconfiado
Tu tá aí admirado
Ou tá querendo roubar?

Outro aspecto muito abordado na música é o preconceito gerado pelas diferenças de classes sociais, um problema ainda muito presente em nosso país até os dias de hoje. 

O protagonista sofre discriminação por um “cidadão”. Por não ter muitas condições financeiras, ele chega até a ser confundido com um assaltante. 

Esse título, inclusive, não foi escolhido por acaso. Ao chamar a pessoa que o discriminou dessa forma, o pedreiro ressalta as diferenças entre os mais privilegiados e as classes mais baixas no Brasil

Nesse sentido, apenas aqueles mais favorecidos têm seus direitos reconhecidos e podem ser considerados, de fato, cidadãos brasileiros.

Meu domingo tá perdido
Vou pra casa entristecido
Dá vontade de beber
E pra aumentar o meu tédio
Eu nem posso olhar pro prédio
Que eu ajudei a fazer

Diante da humilhação sofrida, ao personagem só resta voltar para casa, cabisbaixo. Esse trecho reforça ainda mais o sentimento de não pertencimento das pessoas das classes menos favorecidas e ressalta uma problemática recorrente entre elas: o alcoolismo. 

E, por mais que essa parcela da população participe da sociedade de forma ativa, ao construir, literalmente, os edifícios que a compõem, ela não se sente incluída nessa realidade. Muitas dessas pessoas, inclusive, não têm nem casa própria.

Tá vendo aquele colégio, moço?
Eu também trabalhei lá
Lá eu quase me arrebento
Fiz a massa, pus cimento
Ajudei a rebocar

Novamente, nesse trecho, o pedreiro cita mais um local que ele ajudou a construir, com muita dedicação e trabalho árduo: um colégio.

Minha filha, inocente
Vem pra mim toda contente
Pai, vou me matricular
Mas me diz um cidadão
Criança de pé no chão
Aqui não pode estudar

No entanto, nem a escola que ele construiu pode ser sala de aula para a sua filha, porque ele não tem condições de arcar com uma mensalidade cara. Afinal, outra deficiência sofrida por ele e por tantos brasileiros é a educação de qualidade

Essa dor doeu mais forte
Por que é que eu deixei o norte?
Eu me pus a me dizer
Lá a seca castigava
Mas o pouco que eu plantava
Tinha direito a comer

Nessa estrofe, outra realidade brasileira é retratada: a imigração do Norte e do Nordeste para o Sul e o Sudeste do país. Os imigrantes deixam os seus estados de origem para fugir da seca e da fome. 

Entretanto, ao chegarem a cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, essas pessoas não encontram todas as oportunidades que imaginavam e se deparam, mais uma vez, com a pobreza

Tá vendo aquela igreja, moço?
Onde o padre diz amém
Pus o sino e o badalo
Enchi minha mão de calo
Lá eu trabalhei também

Nessa parte da música, descobrimos que o pedreiro também trabalhou na construção de uma igreja. Aqui, um outro aspecto dessa classe social é evidenciada: a fé. 

Lá foi que valeu a pena
Tem quermesse, tem novena
E o padre me deixa entrar
Foi lá que Cristo me disse

Além de ser um porto seguro para os mais pobres, a igreja também é um espaço onde eles conseguem ser bem recebidos. Lá, eles podem participar livremente das festas e conviver com igualdade ao lado de outros fiéis. 

Rapaz deixe de tolice
Não se deixe amedrontar
Fui eu quem criou a terra
Enchi o rio, fiz a serra
Não deixei nada faltar

Essa crença do eu lírico na religião faz com que ele tenha mais esperança para seguir em frente. Mais uma característica marcante do povo brasileiro presente nesta música. 

Hoje o homem criou asa
E na maioria das casas
Eu também não posso entrar
Fui eu quem criou a terra
Enchi o rio, fiz a serra
Não deixei nada faltar
Hoje o homem criou asas
E na maioria das casas
Eu também não posso entrar

Ao final de Cidadão, o pedreiro consegue se identificar com a história de Jesus Cristo. Da mesma forma que ele, o filho de Deus foi rejeitado, teve os seus direitos negados e ainda sofreu muitos preconceitos do restante da população. 

Mas nada disso fez com que ele desistisse de correr atrás dos seus objetivos, assim como inúmeros brasileiros, personificados em nosso protagonista. 

São pessoas que lutam, com muita força de vontade e todos os dias, por um futuro melhor. Uma reflexão profunda para uma letra que é a cara do Brasil!

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Assim como Cidadão, que nós acabamos de analisar o significado, o cantor tem muitos sucessos que agradam o público há muitos anos. Por isso, que tal continuar no clima e conhecer as melhores músicas do Zé Ramalho

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