LETRAS.MUS.BR - Letras de músicas

Analisando letras

Conheça o significado da música Mosca Na Sopa, de Raul Seixas

Por Érika Freire

6 de Janeiro de 2020, às 19:00


Não é à toa que nos shows e barzinhos da vida sempre há alguém que grita lá do fundo: toca Raauuul! Ele é um verdadeiro mito que marcou o rock e revolucionou a música nacional.

Raul Seixas nos deixou grandes composições com letras que até hoje fazem a gente refletir. 

Raul Seixas
Créditos: Divulgação

A música Mosca Na Sopa é um desses exemplos e demonstra a criatividade e a inteligência do roqueiro nascido em Salvador

Sua letra pode parecer engraçadinha em um primeiro momento, mas esconde uma mensagem de grande profundidade. Bora analisar melhor o que diz a canção? 

Significado da música Mosca Na Sopa

Lançada em 1973 no álbum Krig-ha, Bandolo!, primeiro trabalho de Raul,  Mosca Na Sopa tem influências do candomblé, o que se percebe logo no início, com as misturas de ritmos e batidas. 

Em um contexto geral, a música faz uma ironia ao período da Ditadura Militar, na qual a mosca é a representação do próprio Raul, que sempre incomodou os policiais e a censura, tão presentes naquela época.

Tanto que o roqueiro e seu grande parceiro de composições, Paulo Coelho, foram levados ao Dops – Departamento de Ordem Política e Social – para explicarem o que significava, de fato, Krig-ha, Bandolo!, nome do primeiro trabalho solo do cantor. 

Raul Seixas e Paulo Coelho
Raul Seixas e Paulo Coelho / Créditos: Divulgação

A gente bem sabe que a mosca é um inseto bastante inconveniente e que vive importunando. A sopa é o governo militar. Só que não adianta oprimir a mosca, tentar expulsá-la, porque quanto mais se repreende, mais ela volta a infernizar.  

Assim era o cenário de um dos períodos mais conturbados do Brasil, e Raul soube burlar a censura, em alguns momentos, para passar a mensagem que queria. Vamos agora conferir a análise completa: 

Análise trecho a trecho de Mosca Na Sopa 

A letra de Mosca Na Sopa tem diversos trechos que se repetem, algo proposital para deixar clara a mensagem e o simbolismo da própria mosca. Um inseto complicado, irritante e que sempre vem nos perturbar quando estamos comendo.

Eu sou a mosca
Que pousou em sua sopa
Eu sou a mosca
Que pintou pra lhe abusar

Raul começa a estrofe apresentando a cena de uma mosca que pousa na sopa, de forma abusada. Este é o retrato do próprio Raul. 

É preciso analisar também que a música faz parte do álbum Krig-ha, Bandolo!, cuja capa traz aspectos simbólicos e muito provocativos para o período, no qual os artistas não conseguiam se expressar livremente.

Era preciso sabedoria para continuar fazendo arte de forma subliminar. 

Capa do álbum Krig-Ha, Bandolo!, de Raul Seixas
Capa do álbum Krig-Ha, Bandolo!, de Raul Seixas / Créditos: Divulgação

Raul aparece sem camisa na capa com um colar de medalhão com símbolo do Nepal, e em sua mão direita, o desenho de uma chave — a mesma que aparece mais tarde no símbolo da Sociedade Alternativa. O olhar do roqueiro na capa é irônico. 

Eu sou a mosca
Que perturba o seu sono
Eu sou a mosca
No seu quarto a zumbizar

Esta estrofe repete a ideia da primeira, porém, Raul acrescenta a palavra zumbizar. Teoricamente, ela não existe no dicionário, mas representa o movimento da mosca.

Do zumbido, ele fez o verbo. Sem dúvida, representava o tremendo barulho que Raul estava apenas começando a fazer. 

E não adianta
Vir me dedetizar
Pois nem o DDT
Pode assim me exterminar
Porque você mata uma
E vem outra em meu lugar

Neste trecho, a música ganha um ritmo mais rápido e a provocação se torna mais evidente. Ele ressalta que não adianta dedetizar, ou seja, não adianta calar, matar, impedir… tudo o que os militares faziam na época.

Se extermina uma vem outra no lugar e o rebuliço continua. Afinal, alguém tinha que fazer oposição, não é verdade? Era também um grito de revolta de Raul e de tantos outros artistas que sofreram opressão. 

Atenção, eu sou a mosca
A grande mosca
A mosca que perturba o seu sono
Eu sou a mosca no seu quarto
A zum-zum-zumbizar
Observando e abusando
Olha do outro lado agora
Eu tô sempre junto de você
Água mole em pedra dura
Tanto bate até que fura
Quem, quem é?
A mosca, meu irmão!

Se utilizando do humor, algo muito marcante na trajetória de Raul, a letra de Mosca Na Sopa continua, agora pedindo atenção para um inseto gigante. Não era um inseto pequeno, sem importância, era algo bem visível

Era gigante e capaz de perturbar o sono, de entrar no quarto para zumbizar. E repare que ele complementa a estrofe falando sobre observação, e ironiza dizendo que está sempre junto de você.

Raul usa o pronome eu, mais uma vez dando a entender que a mosca se refere a ele próprio.

Mas também podemos interpretar a letra de Mosca Na Sopa através de uma visão geral sobre o que a Ditadura simbolizava naquela época. A mosca é o próprio povo e a sopa seriam os militares, uma grande metáfora utilizada por Raul

Ditadura militar no Brasil
Créditos: Divulgação

O povo, apesar da opressão descarada do regime, incomodava porque sabia, de uma forma ou de outra, se opor. Talvez não através da luta, mas de respostas singelas. 

Tanto que, um ano depois do lançamento de Krig-ha, Bandolo!, o álbum Gita, lançado em 1974, vendeu mais de 600 mil cópias.

Raul e o povo eram ou não eram uma tremenda mosca chata a pousar na sopa dos militares?

Um pouco mais sobre o Maluco Beleza

Raul Seixas nasceu em Salvador, em 28 de junho de 1945. Antes de alcançar o sucesso e de se tornar o mito que hoje conhecemos, deu aulas de violão e inglês para sobreviver. 

Em 67 recebeu um convite do cantor Jerry Adriani para acompanhar sua turnê e foi para o Rio de Janeiro. Porém, voltou para Salvador em 69 muito desiludido.

O encontro com Paulo Coelho foi um grande divisor de águas na carreira de Raul. Ambos se uniram no início dos anos 70 e começaram a compor juntos. Mergulharam juntos também nas droga e nos estudos sobre misticismo, Aleister Crowley e fundaram a Sociedade Alternativa.

Raul Seixas e Paulo Coelho
Raul Seixas e Paulo Coelho / Créditos: Divulgação

Raul e Paulo Coelho foram exilados nos Estados Unidos e, lá, Raul continuou sua jornada pela música, entrando em contato com as canções e influências de Jerry Lewis, Elvis Presley e John Lennon.

Apesar de tantos empecilhos e o seu problema grave com álcool, Raul lançou 21 discos em seus quase 30 anos de carreira. Seu álbum mais vendido foi Gita, que lhe rendeu o disco de ouro. 

Raul morreu devido a uma parada cardíaca causada por pancreatite, no dia 21 de agosto de 1989. Mesmo depois de sua morte, o Maluco Beleza continuou vivo nos corações dos brasileiros e incomoda muita gente até hoje!

Raul Seixas além de Mosca Na Sopa

Ah, a gente ouviu você gritando toca Raul! E é claro que vamos atender. Vem com a gente conferir as 10 melhores músicas do Maluco Beleza.

Melhores músicas do Raul Seixas