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Analisando letras

Maria da Vila Matilde: análise da música de Elza Soares

Por Renata Arruda

15 de Março de 2020, às 19:00


Elza Soares é uma lenda. Premiada pela BBC como uma das maiores cantoras do milênio no ano 2000, ela passou por inúmeras provações e, como uma fênix, sempre foi capaz de reerguer-se e reinventar-se de maneira brilhante.

Elza Soares
Créditos: Divulgação

Um exemplo disso é o lançamento do álbum A Mulher do Fim do Mundo, primeiro de sua carreira a trazer apenas canções inéditas. O disco foi responsável pelo renascimento musical da artista e venceu de vários prêmios, incluindo o Grammy Latino.

No repertório, as faixas abordam temas como negritude, feminismo, transexualidade e violência doméstica — assunto da poderosa Maria da Vila Matilde, que Elza Soares vivenciou na pele.

Vem dar uma olhada em nossa análise e entender melhor a música!

Quem é Maria da Vila Matilde?

Com o subtítulo Porque se a da Penha é brava, imagine a da Vila Matilde!, a música Maria da Vila Matilde retrata a violência doméstica sofrida por muitas mulheres brasileiras, ressaltando a importância de denunciar os agressores.

A canção faz referência à Lei Maria da Penha, que entrou em vigor em 2006 com o objetivo de prevenir e punir a violência contra a mulher. Segundo Elza, a música serve para denunciar, para gritar. Muitas vezes nós gritamos e as pessoas não nos ouvem.

Maria da Penha
Maria da Penha / Créditos: Divulgação

Escrita por Douglas Germano, a letra é uma homenagem dele à sua mãe, Maria. Moradora do bairro Vila Matilde, em São Paulo, Maria sofreu repetidas agressões do marido.

“Minha mãe soluçava pela casa com hematomas e meu pai saía para trabalhar. Aquilo era como se fosse um segredo nosso. Segredo de família. Achava ruim”, contou Germano. Naquela época, não havia lei que protegesse as mulheres.

Análise da música Maria da Vila Matilde

Assim como a mãe do compositor, Elza Soares também foi vítima de violência doméstica, tendo sido maltratada em seus dois casamentos. No entanto, ela deu a volta por cima.

Elza Soares
Créditos: Divulgação

Veja como a música se relaciona com a vida da cantora na análise a seguir:

Cadê meu celular?
Eu vou ligar pro 180
Vou entregar teu nome
E explicar meu endereço
Aqui você não entra mais
Eu digo que não te conheço
E jogo água fervendo
Se você se aventurar

Contada em primeira pessoa, a letra começa com a personagem Maria da Vila Matilde anunciando que vai denunciar seu marido à Central de Atendimento à Mulher no Ligue 180. 

Além disso, ela ainda o expulsa de casa, ameaçando reagir caso ele retorne.

Inexistente algumas décadas atrás, o Ligue 180 é um serviço relacionado à Lei Maria da Penha para que mulheres possam denunciar seus agressores. No entanto, muitas ainda sentem medo ou vergonha de fazer uma denúncia contra seus parceiros ou ex-parceiros.

Ligue 180
Créditos: Divulgação

Assim, os versos podem ser entendidos como um encorajamento para que as mulheres rompam o silêncio e deem o primeiro passo para sair de relacionamentos abusivos.

Eu solto o cachorro
E, apontando pra você
Eu grito: Péguix guix guix guix
Eu quero ver
Você pular, você correr
Na frente dos vizim
Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim

Continuando com o aviso, Maria da Vila Matilde informa a seu marido que caso ele tente voltar para a casa à força, ela vai soltar o cachorro pra cima dele.

De forma provocadora, os versos Eu quero ver você pular, você correr na frente dos vizim ironizam a superioridade masculina, colocando o homem em uma posição de fragilidade que escancara toda a sua covardia.

Uma vez que em nossa sociedade a violência doméstica ainda é minimizada, como provam frases como Em briga de marido e mulher não se mete a colher, e a vítima é vista com desconfiança, a ideia de colocar o homem para correr na frente dos vizinhos é uma forma de transferir o constrangimento a quem merece: o agressor.

E quando o samango chegar
Eu mostro o roxo no meu braço
Entrego teu baralho
Teu bloco de pule
Teu dado chumbado
Ponho água no bule
Passo e ainda ofereço um cafezim
Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim

A estrofe acima faz uso de algumas expressões como samango, pule e dado chumbado, que remetem a um vocabulário popular. Neste caso, o termo samango, que tem múltiplos significados, é empregado para se referir a policial militar, gíria que era comum nos anos 60. 

Nesse trecho, a mulher expõe as possíveis contravenções cometidas pelo marido, demonstrando que ele é viciado em jogos, apostas (pule) e faz uso de dados chumbados, ou seja, dados que são adulterados para beneficiar o jogador.

A ideia aqui é ridicularizar o agressor, mostrando que a Maria da Vila Matilde não sente nenhum tipo de medo — e ainda passa um cafézinho enquanto ele é humilhado.

E quando tua mãe ligar
Eu capricho no esculacho
Digo que é mimado
Que é cheio de dengo
Mal acostumado
Tem nada no quengo
Deita, vira e dorme rapidinho
Você vai se arrepender de levantar a mão pra mim

Essa estrofe fala sobre machismo estrutural. Fazendo uso de muitas gírias, Maria da Vila Matilde aponta para a propagação de valores machistas que são reproduzidos culturalmente, inclusive pelas próprias mulheres.

Assim, entende-se que ela responsabiliza também a mãe do agressor pelo comportamento dele. Em outras palavras: o trecho faz um alerta às mulheres para que não criem homens dominadores, que esperam ser servidos e agradados por esposas submissas.

Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim

Diferente da personagem, Elza Soares viveu em um tempo em que a violência contra a mulher era normalizada e as vítimas silenciadas. A cantora foi agredida durante o primeiro casamento e também pelo jogador Mané Garrincha, seu segundo marido.

Elza Soares e Garrincha
Elza Soares e Garrincha / Créditos: Divulgação

De acordo com a artista, o casamento de 15 anos com o jogador foi bastante conturbado. Alcoólatra, ele a espancou inúmeras vezes, chegando a quebrar os dentes dela durante uma discussão. 

Elza Soares sofreu todos esses abusos calada e a canção Maria da Vila Matilde é a primeira em seu repertório a tratar do tema.

Mão, cheia de dedo
Dedo, cheio de unha suja
E pra cima de mim? Pra cima de moa? Jamé, mané!

E é assim que a canção termina: com uma Maria da Vila Matilde empoderada e consciente dos seus direitos. Ela não aceita mais se submeter à violência e não teme denunciar o agressor, restaurando sua dignidade.

O silêncio mata
Créditos: Divulgação

Um pouco mais sobre Elza Soares

Filha de uma lavadeira e de um operário, Elza Soares nasceu na favela da Moça Bonita, em Padre Miguel, zona oeste do Rio de Janeiro. O ano de seu nascimento é incerto: isso porque a cantora tem nada menos do que três registros diferentes.

Casou-se aos 12 anos, obrigada por seu pai, e ficou viúva aos 21, com cinco filhos para criar. Trabalhou como lavadeira e empregada doméstica e conheceu a dor de perder quatro dos oito filhos que teve ao longo da vida.

Seu relacionamento com Garrincha fez com que se tornasse alvo de perseguições de fãs que a culpavam pelo fim do casamento do jogador. O casal decidiu se auto exilar na Itália, por questões de segurança.

Guerreira, ela enfrentou a pobreza, a fome, o racismo e o machismo, mas não deixou de lutar e manter a cabeça erguida. Hoje, Elza Soares é um dos maiores nomes da música brasileira de todos os tempos.

Cantoras inesquecíveis

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Cantoras Brasileiras Antigas
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