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“Abram alas pro rei” – Djonga lança novo disco

Por Nathalia Terayama

5 de Abril de 2019, às 07:00


O nome dele é Gustavo Pereira Marques, porém nós o conhecemos como Djonga. Esse mineiro da capital estudou história, é rapper, compositor, escritor, crítico social… Enfim, há muitos “rótulos” para qualificá-lo e, ao mesmo tempo, nenhum deles é suficiente. Porque ele é muitos em um só. Em uma semana de lançamento, seu novo álbum, Ladrão, já tem mais de 3 milhões de views no YouTube.

Natural da Zona Leste de BH, Djonga começou a compor em 2010 com 16 anos, e suas influências musicais vão desde o samba até membros consagrados do rap nacional. Essa raiz eclética que faz referência a nomes importantes como Renato Russo faz com que suas músicas sejam apreciadas por vários tipos de ouvintes. Exemplo disso é a Rainha da Sofrência, Marília Mendonça, ter citado uma de suas músicas nas redes sociais.

Um pouco sobre a carreira musical de Djonga

Ele começou a se interessar por poesia em 2012, quando frequentava saraus apenas como ouvinte. Em 2016, um ano antes do lançamento do primeiro CD, trabalhou em parcerias com diversos rappers notáveis e, no mesmo ano, foi convidado para fazer uma participação na faixa Sujismundo de Baco Exu do Blues.

No ano seguinte, 2017, lançou seu álbum de estreia, Heresia, que tem a capa fazendo referência ao famoso CD dos mineiros do Clube da Esquina e o sucesso foi imediato. Em 2018 lançou seu segundo álbum: O Menino Que Queria Ser Deus.

álbum O Menino Que Queria Ser Deus de Djonga
Capa do álbum Heresia / Créditos: Divulgação

Djonga tem um discurso afiado, composto por metáforas fortes em suas letras atreladas a atitudes poderosas dentro e fora dos palcos. Muito além do talento para  compor, uma palavra importante para descrever suas músicas e ele próprio é: representatividade.

“Ele é real… até demais”. Sentiu o impacto dessa frase? Pois é. É uma descrição perfeita de um cara que representa a voz de uma galera que é esquecida todos os dias. Esse tom de realidade, de “gente como a gente”, faz com que as pessoas que vivem aquela realidade sintam-se acolhidas e descritas.

Ele é real, porque tem lugar de fala para criticar cada uma das coisas que ele critica. Ele é real, porque o seu discurso é coerente com suas ações. E, por fim, ele é real porque não precisa “fazer média” para ninguém, seu sucesso fala por si.

Djonga lançou, no último dia 13 de março, um novo álbum, o “terceiro gol de placa” de sua carreira. Com capa impactante e letras fortes, na primeira faixa ele já diz a que veio. Um pouco mais de uma semana depois do lançamento do álbum Ladrão, Djonga anunciou o show de lançamento, em Belo Horizonte, a preços populares. Quer conhecer mais do show? Continue a leitura!

Djonga anuncia show de lançamento do disco Ladrão

O disco é marcado pela mistura de vocais ora gritados, ora mais lentos, com refrões que mais parecem os hinos do Galo, de tão apaixonados. Ladrão foi lançado no dia 13 de março, assim como os outros dois discos nos anos anteriores, e já extrapola os milhões de views no YouTube. A data continua dando sorte como nas duas primeiras vezes.

O show de estreia tem ingressos a preços populares, acessíveis, e derrubou inúmeras vezes o site que os estava vendendo. Mas não é para menos, todo mundo quer ouvir o CD ao vivo. As músicas são ácidas, acertadas e criticam a classe média mineira: Cagando potes pra classe média culpada/ Que agora quer colar com nóis.

Além das denúncias sociais, há referências a Oscar Niemeyer e a Jordan Peele, diretor do filme Corra, cujo enredo mostra o racismo escrachado na sociedade estadunidense. Isso tudo atrelado à narrativa do contexto social da periferia de Belo Horizonte.

Todas as músicas são poesia pura, com toques de lirismo e de pé na porta. Mostram a gratidão e o respeito pelas origens, pelas raízes, pela ancestralidade e pela religiosidade. A seguir, duas músicas que merecem ser ouvidas incansavelmente todos os dias, assim como o disco todo.

Hat-Trick

A letra de Hat-Trick já mostra a que veio: Falo o que tem que ser dito/ Pronto pra morrer de pé/ Pro meu filho não viver de joelho/ Cê não sabe o que é acordar com a responsa/ Que pros menor daqui eu sou espelho. Sabe a representatividade? Sabe aqueles meninos negligenciados na periferia? Pois é. É um cara que fala do que sabe, do que viveu, e que não quer que outros passem pelo que ele já passou.

Djonga menciona o machismo e usa o seu lugar de fala para denunciar a objetificação da mulher: Cada vez mais objetivo/ Pra que minhas irmãs deixem de ser objeto/ E parece que liberaram o preconceito/ Pelo menos antigamente esses cuzão era discreto.

No final da letra, ele reforça a sua importância para o seu núcleo familiar e para a comunidade a qual ele representa: De onde eu vim, quase todos dependem de mim/ Todos temendo meu não, todos esperam meu sim. Essa música tem a letra tão forte, tão real e tão representativa que é impossível destacar apenas algumas partes. Apenas escute várias vezes. Fim!

Bença

Bença é uma música com uma vibe bem pessoal e familiar, e a letra começa com um vocativo: Vó, como cê conseguiu criar 3 mulheres sozinha/ Na época que mulher não valia nada?/ Menina na cidade grande, no susto viúva/ E daquela cor que só serve pra ser abusada. Retrata a força das mulheres, principalmente as de sua família, e as suas origens em uma sociedade patriarcal, machista e racista.

Além disso, ele menciona seu núcleo familiar e a “sorte” de ter um pai presente em um país onde há tanto abandono parental, principalmente por parte do homem: Não teve a mesma sorte que eu, um pai presente/ No país onde o homem que aborta mais, vai entender, né.

Enfim, é uma música que fala de ancestralidade, de racismo e de religiosidade. Os vocais contam com a “bença” da avó em meio ao ritmo nostálgico que nos remete às matriarcas fortes da maioria das famílias.

Por fim…

Claro que escolher músicas importantes dentro de um universo de letras geniais e necessárias para nossa sociedade atual é um desafio imenso. Djonga tem o tipo de letra que você pode ouvir inúmeras vezes e você sempre vai achar uma informação, uma interpretação ou um detalhe diferente a cada vez que ouvir.

É interessante pensar na música servindo como forma de inclusão e no fato de a postura do cantor não mudar com o sucesso. Continua tendo como exemplos as mulheres fortes de sua família e continua sabendo para onde voltar…

E esse discurso é extremamente coerente com as atitudes do cantor, que disponibiliza suas músicas primeiro em plataformas mais acessíveis ao público geral, como o YouTube, e somente depois em plataformas pagas streaming. Assim, cito uma definição de mais um amigo que tem lugar de fala nesse quesito: “Djonga é a ascensão de um preto, através de música preta, mostrando de forma clara e escrachada os anseios de gente pobre, e o racismo institucional e cultural”.

É bem isso!

Escute aqui esse álbum bom do início ao fim dessa mente brilhante Made In Minas Gerais.

Djonga
Créditos: Divulgação