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Análise: entenda a música Desconstruindo Amélia, da Pitty

Por Renata Arruda

6 de Março de 2020, às 22:00


No ano de 1970, as Nações Unidas instituíram o dia 8 de março como o Dia Internacional da Mulher, uma data para celebrar as conquistas dos movimentos feministas e reivindicar igualdade de direitos para as mulheres em todas as esferas da vida.

Com os avanços na sociedade, a mulher deixou de se dedicar exclusivamente à família, alcançando autonomia e empoderamento.

No entanto, a luta continua e ainda há muito o que se fazer para que as mulheres consigam equilibrar sua rotina sem serem sobrecarregadas por inúmeras tarefas.

Pitty
Créditos: Divulgação

Por isso, hoje trouxemos uma análise de Desconstruindo Amélia, música lançada pela Pitty em 2009 no álbum Chiaroscuro, que fala justamente sobre o papel da mulher moderna na sociedade

Vem com a gente entender um pouco mais dessa história!

Análise da música Desconstruindo Amélia

Você provavelmente já ouviu os versos Amélia não tinha a menor vaidade, Amélia é que era mulher de verdade, da canção Ai, Que Saudades da Amélia. A composição de Mário Lago e Ataulfo Alves fez com que o termo Amélia se tornasse um símbolo de mulher submissa às necessidades e desejos do homem.

Em Desconstruindo Amélia, Pitty procura romper com essa ideia e investigar quem seria a Amélia do século XXI. Na letra, ela conta a história de uma mulher moderna sobrecarregada em multitarefas que um dia resolve assumir o protagonismo da própria vida.

Daí o título referir-se a uma desconstrução, o ato de desfazer princípios tradicionais estabelecidos para reconstruir algo novo: a Amélia de hoje rompe com os padrões que foram impostos a ela.

Veja a nossa análise estrofe por estrofe desse verdadeiro hino para as mulheres! ✊

Já é tarde, tudo está certo
Cada coisa posta em seu lugar
Filho dorme, ela arruma o uniforme
Tudo pronto pra quando despertar

A música começa narrando a rotina de uma mulher muito parecida com a Amélia tradicional.

Ocupada com as tarefas domésticas, continua trabalhando mesmo tarde da noite, aproveitando a hora em que o filho dorme para deixar tudo pronto para o dia seguinte. 

Mulher Multitarefas
Créditos: Divulgação

O ensejo a fez tão prendada
Ela foi educada pra cuidar e servir
De costume, esquecia-se dela
Sempre a última a sair

A história continua falando sobre o quanto essa mulher foi moldada para se encaixar no papel tradicional daquela que cuida da casa e da família, sempre disposta a servir. Ela coloca-se em último lugar.

Assim, ela cumpre com a rotina diária de primeiro garantir que tudo está arrumado e que todos estão satisfeitos, para em seguida cuidar de si. Sobra pouco tempo para se cuidar e ela é a última a ficar pronta.

Esse trecho chama a atenção para o desequilíbrio na divisão das tarefas do lar e a exploração do trabalho doméstico exercido pelas mulheres.

Disfarça e segue em frente
Todo dia até cansar 
E eis que de repente ela resolve então mudar
Vira a mesa, assume o jogo
Faz questão de se cuidar 

Aqui vemos o momento em que a Amélia moderna, sentindo-se sobrecarregada, deixa o conformismo de lado e resolve dar um basta, assumindo o controle da sua vida.

A mulher agora resolve se colocar como prioridade. Sai de cena a Amélia sem vaidade e entra aquela que se cuida e gosta de si mesma, sem culpas. 💁‍♀

Nem serva, nem objeto
Já não quer ser o Outro
Hoje ela é Um também

Desse modo, são rompidos os papéis de gênero tradicionalmente atribuídos às mulheres: o de servas, santas, sem vida própria, que existem com a finalidade de cuidar dos outros, e o de objetos sexuais, prontas para satisfazer os desejos alheios.

Os versos Já não quer ser o Outro, hoje ela é Um também é uma referência a um conceito formulado por Simone de Beauvoir no livro O Segundo Sexo. Segundo a filósofa, a mulher ocupa a posição do Outro do homem: ou seja, ela não é definida como um ser humano completo e universal, mas em comparação ao homem e a partir do olhar dele.

Capa do livro O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir
Capa do livro O Segundo Sexo / Créditos: Divulgação

Em entrevista, Pitty explicou: É ótimo o jeito que ela investiga o papel feminino na sociedade, o conceito de o homem ser tido como Um e a mulher como o Outro, o reflexo. O espelho, o ponto de partida é o Um, e a mulher aceitando isso se coloca na posição de ser o Outro. Daí veio a frase: Já não quer ser o Outro, hoje ela é Um também.

Logo, ela está afirmando que a mulher não quer mais ser limitada aos papéis atribuídos a ela por uma sociedade machista; a mulher agora é dona de si mesma.

A despeito de tanto mestrado
Ganha menos que o namorado
E não entende o porquê
Tem talento de equilibrista
Ela é muitas, se você quer saber

Aqui a letra escancara mais uma injustiça experimentada pela mulher moderna: muitas vezes ela é extremamente qualificada, em alguns casos até mais do que os homens, mas os salários continuam sendo estatisticamente mais baixos que o deles.

Jornada múltipla da mulher
Créditos: Divulgação

A música comenta ainda a jornada múltipla enfrentada pela mulher, que envolve trabalhar fora, cuidar da casa, da família, das compras e de si mesma.

Hoje aos 30 é melhor que aos 18
Nem Balzac poderia prever
Depois do lar, do trabalho e dos filhos
Ainda vai pra night ferver

Falando sobre as transformações sociais e culturais vividas pelas mulheres nas últimas décadas, Pitty faz uma referência ao romance A Mulher de 30 Anos, do autor francês Honoré de Balzac.

Capa do livro A Mulher de 30 Anos, de Balzac
Capa do livro A Mulher de 30 Anos / Créditos: Divulgação

Escrito no século XIX, o livro expõe o quanto uma mulher de 30 anos já era considerada velha para os padrões daquela época. 

Assim, a compositora defende que essa ideia já está ultrapassada no século XXI, uma vez que hoje as mulheres dessa idade não são mais consideradas senhoras e estão cheias de vigor, beleza e juventude — às vezes, até mais do que quando tinham 18 anos.

Disfarça e segue em frente
Todo dia até cansar
E eis que de repente ela resolve então mudar
Vira a mesa, assume o jogo
Faz questão de se cuidar
Nem serva, nem objeto
Já não quer ser o Outro
Hoje ela é Um também

Desconstruída, a Amélia de Pitty rompeu com o costumes que a limitavam e resolveu viver a própria vida. Ela foi estudar, entrou no mercado de trabalho, sai pra se divertir com os amigos e não se importa com a sua idade. É livre, como todas as mulheres deveriam ser.

Para finalizar, vale a pena ler o que a artista escreveu sobre a música na época do seu lançamento:

Depois de queimar o sutiã, obter direito ao voto e passar a exercer cargos de comando em poderosas empresas, como sentem-se hoje as mulheres? Aliviadas por terem mais autonomia ou sobrecarregadas porque além dos afazeres domésticos acumulam a função de sustentar uma casa?

Pesquisei, e não pude deixar de (re) ler O Segundo Sexo de Simone de Beauvoir; obra esta que me ajudou a clarear os pensamentos e a trazer para a música a seguinte frase: Já não quer ser o Outro, hoje ela é Um também. 

A Amélia de Ataulfo e Mário Lago mudou. Aquela que ‘era mulher de verdade e que não tinha a menor vaidade’ hoje se desdobra entre a delicadeza de saber preparar uma refeição e a garra de acordar cedo pra ir trabalhar e tomar decisões. E, claro, se por acaso der pra fazer as unhas no intervalo do almoço, melhor ainda.

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