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AmarElo: análise da música de Emicida com trecho de Belchior

Por Renata Arruda

2 de Abril de 2020, às 12:00


Perder não é opção, diz Emicida a certa altura de AmarElo. Lançada em 2019, a música conta com as participações de Pabllo Vittar e Majur para trazer uma mensagem de resiliência e empoderamento a todos que não enxergam uma luz no fim do túnel.

Emicida, Pabllo Vittar e Majur
Créditos: Divulgação

Não por acaso, o rapper incluiu no início do videoclipe um áudio emocionante, enviado por um amigo próximo que enfrentava uma depressão e acreditava que o suicídio era a única saída. Ele conseguiu sair dessa e hoje está bem.

E é aí que se encaixa o sample da canção Sujeito de Sorte, de Belchior, utilizada de forma brilhante na música: se ano passado nós fomos abatidos, dessa vez seremos maiores que os nossos problemas, sejam eles quais forem.

Vem saber mais sobre AmarElo em nossa análise desse grande hit de Emicida!

Análise da música AmarElo, de Emicida

Escrita pelo rapper e com versos sampleados de Belchior, AmarElo traz uma mensagem positiva de força, que fala diretamente aos excluídos. Vamos dar uma olhada mais detalhada nas estrofes?

Presentemente eu posso me considerar um sujeito de sorte
Porque apesar de muito moço, me sinto são e salvo e forte
E tenho comigo pensado: Deus é brasileiro e anda do meu lado
E assim já não posso sofrer no ano passado

Tenho sangrado demais
Tenho chorado pra cachorro
Ano passado eu morri
Mas esse ano eu não morro

AmarElo surge em um momento do país no qual muitos artistas se colocam contra discursos de violência, intolerância e retrocesso.

Assim, faz sentido que ela comece com os versos de Belchior: escrita em 1973, durante os anos de ditadura, Sujeito de Sorte é uma música que fala sobre não aceitar a derrota, mas lutar contra ela.

A frase ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro, surge nesse contexto como um hino de esperança, principalmente para aqueles que são oprimidos e excluídos de alguma forma.

Eu sonho mais alto que drones
Combustível do meu tipo? A fome
Pra arregaçar como um ciclone (entendeu?)
Pra que amanhã não seja só um ontem com um novo nome

Emicida começa seu rap com um discurso de determinação, que também mostra a realidade de favelas e periferias brasileiras: a escassez, inclusive de comida, deve ser utilizada como combustível para sonhar alto.

Só assim é possível acreditar que um futuro melhor é possível, se livrando do destino de repetir o mesmo ciclo que derrubou muitos outros.

O abutre ronda, ansioso pela queda (sem sorte)
Findo mágoa, mano, sou mais que essa merda (bem mais)
Corpo, mente, alma, um, tipo Ayurveda
Estilo água, eu corro no meio das pedra

No entanto, ele tem consciência de que há abutres esperando pela sua queda: ou seja, tanto uma estrutura que impede que pessoas de periferia ascendam socialmente, principalmente negras, quanto aqueles que torcem mesmo pelo fracasso alheio.

Citando a Ayurveda, um sistema de saúde original da Índia que tem como foco o equilíbrio entre corpo, mente e alma, ele afirma que seus abutres não terão sorte: ele vai seguir em frente apesar das diversidades, tal qual a água mole que fura a pedra dura.

Na trama tudo, os drama turvo, eu sou um dramaturgo
Conclama a se afastar da lama enquanto inflama o mundo
Sem melodrama, busco grana, isso é hosana em curso
Capulanas, catanas, buscar nirvana é o recurso
É um mundo cão pra nóis, perder não é opção, certo?
De onde o vento faz a curva, brota o papo reto
Num deixo quieto, não tem como deixar quieto
A meta é deixar sem chão quem riu de nóis sem teto (vai!)

Assim, ele afirma que vai correr atrás dos seus objetivos custe o que custar.

Hosana, termo hebraico que significa salve-nos, é citado para mostrar que a busca do cantor pelo dinheiro não é nada além de uma busca por salvação.

Da mesma forma, são usados termos não ocidentais como capulanas (tecido utilizado por mulheres em Moçambique para carregar seus filhos e também em cerimônias religiosas), catanas (facão) e nirvana (que tanto pode significar o estado mental de libertação do sofrimento, segundo o Budismo, quanto a iluminação espiritual, segundo o Hinduísmo).

A ideia é mostrar que é necessário lutar de todas as formas, sem se deixar abater pelos obstáculos no caminho, justamente pelo mundo ser mais difícil pra quem vem de baixo. Só assim será possível alcançar o topo e mostrar que quem não acreditou na gente estava errado.

Tenho sangrado demais
Tenho chorado pra cachorro
Ano passado eu morri
Mas esse ano eu não morro 

Na segunda vez que os versos de Belchior aparecem, eles são cantados por Pabllo Vittar e Majur. A participação delas não é aleatória. Segundo o rapper, as duas trazem, em suas vivências e em suas obras, histórias bonitas a respeito de acreditar em si e de lutar contra o mundo para ser quem são.

Pabllo Vittar e Majur
Créditos: Divulgação

Vale notar que, durante o refrão, Emicida também faz intervenções afirmando que eu preciso cuidar de mim e Belchior tinha razão, o que ressalta a importância de cuidar da própria saúde mental e manter o foco em seus objetivos.

Figurinha premiada, brilho no escuro
Desde a quebrada avulso
De gorro, alto do morro e os camarada tudo
De peça no forro e os piores impulsos
Só eu e Deus sabe o que é não ter nada, ser expulso
Ponho linhas no mundo, mas já quis pôr no pulso
Sem o torro, nossa vida não vale a de um cachorro, triste
Hoje Cedo não era um hit, era um pedido de socorro

Aqui nem sempre fica claro ao que Emicida se refere exatamente, mas é possível notar que os versos são autobiográficos e mostram o quanto ele se sentia deslocado desde antes da fama.

Ao mencionar os piores impulsos dos camaradas, ele pode estar querendo dizer que via muitos de seus conhecidos da quebrada se envolverem em atitudes autodestrutivas, como forma de lidar com a exclusão.

O rapper também fala sobre o choque entre surgir do nada e fazer sucesso: ele se dá conta de que é o dinheiro (torro, na gíria do funk) que faz com que sua vida seja valorizada por aqueles que não se importavam com ele antes de se tornar conhecido.

Assim, Emicida afirma que Hoje Cedo, hit de 2013 cantado em parceria com Pitty, era o pedido de socorro de alguém deprimido com sua posição no mundo: muito famoso mas distante de quem realmente amava.

Mano, rancor é igual tumor, envenena a raiz
Onde a platéia só deseja ser feliz (ser feliz)
Com uma presença aérea
Onde a última tendência é depressão com aparência de férias
(Vovó diz) odiar o diabo é mó boi (mó boi)
Difícil é viver no inferno (e vem à tona)
Que o mesmo império canalha que não te leva a sério
Interfere pra te levar à lona, revide!

Nos versos acima, há uma crítica à forma como transtornos mentais sérios, como a depressão, são tratados. Enquanto uns banalizam a doença, quem sofre de verdade com ela são aqueles que estão excluídos de tudo, acumulando rancor e ódio.

Assim, a mesma estrutura social que não leva a sério quem não faz parte dos seus, ainda tenta derrubar aqueles que conseguem subir na vida apesar dela. A mensagem é clara: revide!

Permita que eu fale, não as minhas cicatrizes
Elas são coadjuvantes, não, melhor, figurantes
Que nem devia tá aqui
Permita que eu fale, não as minhas cicatrizes
Tanta dor rouba nossa voz, sabe o que resta de nós?
Alvos passeando por aí
Permita que eu fale, não as minhas cicatrizes
Se isso é sobre vivência, me resumir à sobrevivência
É roubar o pouco de bom que vivi
Por fim, permita que eu fale, não as minhas cicatrizes
Achar que essas mazelas me definem é o pior dos crimes
É dar o troféu pro nosso algoz e fazer nóis sumir

A estrofe acima na verdade é um poema, chamado Permita que eu fale, escrito por Emicida e incorporado à música.

Os versos chamam atenção para uma vivência muito comum entre pessoas negras, periféricas e LGBTQI+: serem definidas a partir do seu sofrimento, o que é uma forma de desumanizá-las e transformá-las em estereótipos.

Aí, maloqueiro, aí, maloqueira
Levanta essa cabeça
Enxuga essas lágrimas, certo? (Você memo)
Respira fundo e volta pro ringue 
Cê vai sair dessa prisão
Cê vai atrás desse diploma
Com a fúria da beleza do Sol, entendeu?
Faz isso por nóis
Faz essa por nóis 
Te vejo no pódio

Ano passado eu morri
Mas esse ano eu não morro

Por fim, a música termina com um encorajamento: levante a cabeça, termine os estudos e lute. Você vai conseguir! 👊

O álbum AmarElo

União entre as palavras amar e elo, o título AmarElo surgiu de um poema de Paulo Leminski:

Amar é um elo
Entre o azul
E o amarelo.

Segundo o cantor, a ideia original partiu do grupo de rap Inquérito, de quem era produtor executivo. Eles planejavam lançar um álbum chamado AmarElo, mas acabaram descartando o nome e Emicida pegou pra si.

Capa do álbum AmarElo, de Emicida
Capa do álbum AmarElo / Créditos: Divulgação

Contando com participações de peso como Fernanda Montenegro, Zeca Pagodinho, Larissa Luz, Dona Onete, Ibeyi, Marcos Valle, Fabiana Cozza, Drik Barbosa, Pastor Henrique Vieira, MC Tha e muitas outras, AmarElo é um disco que vai na contramão dos trabalhos anteriores de Emicida, apostando em um discurso voltado para a fé, o amor e a positividade. 

Frases do Emicida

Gostou da nossa análise de AmarElo? Então que tal conferir muitas frases marcantes das músicas de Emicida? É pedrada atrás de pedrada!

Frases Emicida